|
Em poucos anos, Amália torna-se num símbolo do
sucesso nacional: a rapariga pobre que com o poder do seu canto passa da
noite para o dia a ser rica e famosa, despertando todas as paixões. Tudo
sobre ela se diz, tudo sobre ela se quer saber, todos os amores lhe são
atribuídos. À sua volta gera-se uma curiosidade
sem precedentes, sendo discutida, criticada, copiada, e seguida com
ilimitado fervor. Amália canta pela primeira vez em Paris, no Chez
Carrère e em Londres no Ritz,
em festas do departamento de Turismo organizadas por António Ferro. Em 1949 estreia-se o filme "Vendaval
Maravilhoso", uma co-produção
Luso-Brasileira, baseada na vida do poeta baiano Castro Alves. Amália
interpreta o papel de Eugénia da Câmara, a amante do jovem poeta, criando
uma personagem totalmente
diferente daquelas que lhe eram normalmente atribuídas. Neste filme histórico
de Leitão de Barros, o mais prestigiado realizador da época, Amália
atinge uma espantosa força dramática, comparável às grandes trágicas do
cinema. Um marco decisivo na internacionalização de Amália
é a sua participação, em 1950, nos espectáculos do Plano
Marshall; um programa de apoio Americano à Europa do pós-guerra
onde participam os mais importantes artistas de cada país. O êxito
repete-se por Trieste, Berna, Dublin e Paris. Amália começa a dar que
falar pela Europa. Em Roma, Amália actua no Teatro Argentina, sendo a única
artista ligeira num espectáculo em que figuram os mais famosos cantores clássicos
do momento. E quando eu vi que era uma orquestra sinfónica e que
todas as pessoas eram cantoras clássicos, estava Canilla, naquela altura a
cantar lá, um Jacques Tibaut que tocava um instrumento qualquer, quer dizer
tudo aquilo era clássico, menos eu. Uma orquestra enorme e eu sozinha com
uma guitarra e uma viola. E eu enchi-me de medo, e eles também, os
guitarristas, ficaram apavorados, com uma orquestra a tocar e eles com a
guitarra e a viola, e eu a cantar com aquelas vozes. Estávamos todos
aterrorizados. E eu dizia assim, "só espero que Nosso Senhor me
dê uma hora de febre muito alta, para eu não ir cantar, mas realmente não
tive a febre, fui cantar mesmo. Entrei, com certeza que a cara que eu tinha,
quando entrei no palco era tão desgraçada que as pessoas começaram a
olhar para mim com uma ternura que isso animou-me um bocado. Não sei se a
ternura foi da minha presença, eu olhei para as pessoas e as pessoas
olharam para mim com um certo interesse. O medo era tão grande que se via,
transparecia na cara. E depois, tive um sucesso muito grande, e pela
primeira vez na minha vida e última tive um chelique, chorava e ria ao
mesmo tempo, e veio toda a gente "perque piange, perque piange, e
estato un sucesso formidabili, perque ? Le brava, le brava". E eu
estava assim naquela coisa, só acreditei naquilo quando saí, estavam as
pessoas à espera e quando eu saí começaram todas a bater palmas. Durante um espectáculo em Dublin, Amália canta
“Coimbra”, que fica no ouvido da cantora francesa Yvette Giraud que a
populariza em França como “Avril au Portugal”. Quando Amália regressa a
Lisboa, dá-se o encontro com Alberto Janes, um desconhecido que faz de propósito para ela a música e a letra
de um fado que haveria de dar a volta ao mundo. O Alberto Janes apareceu-me na
minha casa,* "Sabe, eu sou formado em farmácia, tenho uma farmácia em
Reguengos, mas a minha paixão é a música, a minha paixão é ser artista,
e faço umas coisas e fiz um fado que toda a gente diz quando ouve este fado
- "isto é um fado para a Amália, isto é um fado para a Amália, isto
é um fado para a Amália"- entusiasmaram-me, e eu vim até aqui".
Apareceu-me assim com aquele fado "Foi Deus" que todo a gente
pensava que não era bom, quem estava na minha casa, e eu assim "é
bom, é" porque já me estava a ouvir a cantar o fado, não era ele
porque ele não tocava bem, nem cantava bem. Fez um fado muito bonito, até
agora é um grande fado, em qualquer parte do mundo eu canto aquilo faço um
efeito extraordinário. As palavras que ele escreveu, a música que ele
escreveu, as palavras levam-me a mim a cantar com uma força, porque não há
nenhuma música que leve assim aquelas ovações que leva de calor humano só
porque é bonita. Há outra coisa qualquer que a pessoa sente, e quando
chega ao fim "Foi Deus que me pôs no peito, o rosário de penas que
vou desfiando e choro a cantar", às vezes estou nuns dias que começo
a desfiar o choro e quase não posso acabar de cantar. Eu vi logo que aquilo
era para mim. A partir de 1950, Amália não pára de viajar.
Sucessivas tournées levam-na a África, e às Américas. No México obtém
um grande sucesso, aí permanecendo longas temporadas. Amália que sempre
cantou em espanhol, descobre então a canção popular Mexicana,
a ranchera, que passa a acrescentar ao seu reportório. No entanto, será
com o fado que Amália conquista o México. Deixando o México rendido ao seu fascínio,
Amália parte para actuar num dos lugares mais célebres à face da terra.
Após as suas actuações no Mocambo
de Hollywood, ponto de encontro das grandes estrelas do cinema Amália
recebe propostas para filmes bem como os mais rasgados elogios da crítica. Em 1952 Amália actua pela primeira vez em
Nova Iorque, no La Vie en Rose, onde ficará 14 semanas em cartaz. Torna-se
na primeira artista portuguesa a actuar na televisão americana no famoso
programa “Coke Time with Eddie Fisher”, onde interpreta “Coimbra”.
Assina contrato com a casa Valentim
de Carvalho, fazendo as suas primeiras gravações
para a companhia discográfica nos estúdios da EMI inglesa, em Londres. A
relação discográfica de Amália com a Valentim de Carvalho só será
interrompida brevemente, nos final dos anos 50, por uma passagem pela
editora francesa Ducretet-Thomson, após a qual Amália regressará à
Valentim de Carvalho de vez. Amália é convidada para um pequeno papel no
filme de Henri Verneuil “Os Amantes do
Tejo",
produção francesa parcialmente rodada em Portugal, com Daniel Gélin e
Trevor Howard. No filme Amália interpreta “Canção do Mar” e “Barco
Negro”, que correm mundo arrastadas pelo sucesso do filme. Edita o seu primeiro LP: “Amália Rodrigues sings Fado from Portugal and Flamenco from Spain”, publicado nos EUA pela Angel Records. Este álbum nunca será editado em Portugal com este alinhamento, mas conhecerá edições em Inglaterra e, em 1957, também em França. |
Televisão: - Coke time with Eddie Fisher:
Cinema:
|